domingo, 20 de abril de 2014

SONHO DA BORBOLETA - Gonçalo Nunes de Assis


Uma certa borboleta, muito jovem e de corpo muito frágil, aproveitava numa noite de verão, a cálida e perfumada aragem, quando, reparando no céu, viu uma linda estrela, cujo brilho de imediato a apaixonou. Muito feliz, correu para casa, para contar à sua mãe que finalmente tinha encontrado o amor, mas a mãe, retirou o encanto ao relato, dizendo que as estrelas estavam longe em excesso para que lhe fosse permitido amar uma delas. Que se contentasse com alguma candeia ou candeeiro de poste que era o que estava ao seu alcance.  No entanto a jovem borboleta ignorou as palavras da mãe e achou lindo poder acalentar no seu coração esse amor. Na noite seguinte voltou a olhar o céu e lá estava a sua amada estrela e para si mesma jurou voar até ela para lhe demonstrar o seu amor sincero. De início era muito difícil ultrapassar a altura a que estava habituada a voar, mas entendeu que se a cada dia, apesar do sacrifício pessoal que isso representava, se elevasse um pouquinho mais, acabaria por chegar junto da sua estrela. Encheu-se de paciência, e devagarinho foi tentando chegar cada vez mais perto do seu amor. Em cada noite esperava ansiosa que a sua estrela brilhasse e então iniciava o seu voo cada vez mais alto. A mãe ficou furiosa com a determinação da jovem borboleta e dizia, que as filhas das suas amigas, tinham já os seus amores seguros e possíveis e só ela continuava naquela ilusão, lutando por algo muito acima do seu alcance. A jovem e temperamental borboleta, irritada porque ninguém ligava ao que sentia, saiu de casa e foi viver a sua vida. Mas como sempre acontece, as palavras da mãe ficaram a soar na sua cabeça e começou a achar que ela afinal podia ter toda a razão. Cheia de bom senso comum, resolveu esquecer a estrela, mas lá no fundo o seu coração permanecia vazio sem esse amor. E com o passar do tempo, a saudade era maior que tudo e de novo decidiu procurar a sua estrela. Noite após noite tentou reiniciar o seu voo cada vez mais alto, mas quando a manhã chegava, poucos tinham sido os progressos e muito era o cansaço. Nessas tentativas o tempo foi passando e a jovem borboleta foi ficando cada vez mais madura e prestando mais atenção a tudo que a cercava. Lá de cima via a cidade cheia de luzes, muitas delas seriam certamente os amores das suas amigas e familiares, mas ao olhar as montanhas, os oceanos e as nuvens, ela amava cada vez mais a sua estrela, que era quem lhe tinha feito voar mais alto e assim poder observar de cima todas as belezas que o mundo tinha para lhe mostrar e que as outras borboletas, encandeadas pelas luzes das cidades, jamais veriam. Mais tarde voltou à sua casa , mas ao regressar soube que a sua mãe e as suas primas tinham morrido, com as asas queimadas pelas luzes das velas, destruidoras, amores que elas tinham achado tão fáceis de alcançar.

Embora a borboleta jamais tenha alcançado a sua estrela, viveu muitos anos, descobrindo assim, que muitas vezes os amores difíceis, trazem mais benefícios e alegrias que os amores ditos fáceis e acessíveis, que por não serem nada de especial, estão por força ao alcance da mão. Esta borboleta ensina-nos duas verdades importantes, uma é que devemos sempre lutar pelo nosso amor, por mais difícil que seja, porque é realizar um sonho, que nos pode oferecer a maior felicidade. E segundo, que tudo que é fácil demais, tem sempre algo de mau. O que é bom não está dando sopa por ai. O mundo pertence a quem tem coragem de sonhar e não vira a cara aos seus sonhos.
Gonçalo Nunes de Assis
(Sonhador)

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